segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A transferência e o professor



A Transferência e o professor


“Os educadores, investidos da relação afetiva primitivamente dirigida ao pai, se beneficiarão da influência que esse último exercia sobre a criança.” Sigmund Freud

 A psicanálise muito tem a contribuir para a formação de educadores, já que estes, preocupados com a construção do conhecimento do aluno, devem atentar-se para os aspectos  motivadores do despertar da curiosidade do aluno, processo no  qual a representação que o professor engendra constitui peso considerável.  
Quem não se recorda de alguém já ter dito o quanto determinado professor foi capaz de influenciar consideravelmente na opinião, motivação e relação do aluno em relação a uma disciplina específica? Este fato recorrente encontra na psicanálise fundamentações teóricas para sua sustentação: as transferências, que seriam “reedições dos impulsos e fantasias despertadas (...) que trazem como característica a substituição de uma pessoa anterior pela pessoa do médico (Freud, 1901)” (ou professor) . Como o próprio Freud cita (p.286): “é difícil dizer se o que exerceu mais influência sobre nós e teve maior importância foi a nossa preocupação com as ciências que nos eram ensinadas, ou pela personalidade de nossos mestres.”
Segundo Freud, “os pais constituem para a criança pequena a autoridade única e a fonte de todos os conhecimentos” (p. 243). Eles são os primeiros símbolos para a criança, os quais serão contestados somente mais tarde. A escola possui papel fundamental na descontinuidade deste pensamento, quando distingue  o conhecimento que o aluno trás de casa com a  forma pela qual ele é tratado pelo professor. É de praxe encontrar alunos fazendo suas tarefas de casa e, frente às intervenções sugeridas pelos pais, tenham se retraído veementemente, alegando que a forma proposta por eles não é “do jeito da professora, está errado!”
Tal fato é um exemplo de transferência: os pais, em primeira instância tidos como mantenedores de todo o conhecimento, têm suas posições deslocadas para os professores, que devem por isto estar ciente deste processo psicanalítico, para que possam lidar da melhor forma possível a favorecer a construção do conhecimento. Isto porque: “somente alguém que possa sondar as mentes das crianças será capaz de educá-las” (Freud, p.224).
 O conceito de inconsciente descoberto por Freud faz parte dos três severos golpes sofridos pela humanidade e será através dele que poderemos entender todo o processo de transferência. A psicanálise explica que as pessoas com que a criança passa a conviver fora do círculo abrangendo pai, mãe, babá, irmão ou irmã passarão a exercer um papel de figuras substitutas desses primeiros objetos de seus sentimentos, tornando-se “imagos” (imagens) destes.
A transferência é uma manifestação inconsciente (Kupfer, p.88) e como tal, pode nos deixar em armadilhas tais como nos atos falhos, pois através da transferência podemos nos inclinar ou rejeitar pessoas que estão à nossa volta sem aparentemente sabermos o por quê.
Dessa forma, sentimentos de simpatia ou rejeição gratuitos que tanto o professor pode sentir em relação a algum aluno, assim como algum aluno em relação ao professor, podem ter origem nesta premissa, já que “os relacionamentos posteriores são obrigados a arcar com uma espécie de herança emocional(...) Todas as escolhas posteriores de amizade e de amor seguem a base das lembranças deixadas por esses primeiros protótipos” (Freud, p. 287)
O professor entra em cena geralmente na segunda metade da infância, momento no qual a criança está começando a relativizar a alta opinião original que tinha pelo seu pai, o que torna-os ocupadores de da posição como “pais substitutos”. Tanto é verdade que, transferem-se para estes o respeito e as expectativas ligadas ao ideário do pai da infância. Freud, em seu livro “Psicologia do colegial” aborda esta temática: professores como herdeiros de inclinações carinhosas ou agressivas antes dirigidas aos pais.






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